segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Diário do Palhaço : SOC / Corrêas 28/11/2009

“Nada a temer senão o correr da luta/ Nada a fazer senão esquecer o medo/Abrir o peito a força, numa procura /Fugir às armadilhas da mata escura”
E lá se vão três anos de participação no projeto Brincando com VOCE. Três anos lutando e acreditando nesta proposta de transformação, por intermédio de uma ferramenta, bastante simples e ao mesmo tempo um tanto quanto complexa, chamada pura e simplesmente de: "Alegria". Comecei este trabalho em 2007, em uma casa para especiais, chamado Lar Yolanda Duarte. Um lugar para pacientes em sua grande maioria portadoras da Síndrome de Down e distúrbios mentais leves.
Na ocasião foi uma experiência marcante pra mim, confesso. Afinal era o início deste meu trabalho voluntário. Existiam ainda, muitas dúvidas e além disso, tratava-se da minha primeira experiência como clown. Foi sem dúvida um grande desafio. Uma espécie de “tratamento de choque” na época, quando nós ainda dáva-mos nossos primeiros passos que mais tarde, deram o formato ao que hoje é o Brincanco com VOCE. Eu, sem muitas referências e/ou grandes direcionamentos artísticos, apenas mergulhava de coração e alma na tentativa de sempre fazer o possível, o impossível e o melhor que pudesse. E acabava sendo, tudo quase que 100% coração mesmo. Eu deixava rolar e no final a coisa acontecia quase que naturalmente.
Eu era simplesmente incapaz de auto-avaliar o processo de composição do meu Clown naquela época. Hoje vejo o quanto o nariz vermelho é o meu grande “facilitador” para o alcance dos objetivos da proposta deste projeto e o sucesso do meu grupo como um todo.
Neste último sábado (28/11/2009), encerrei minhas atividades em um outro lugar muito “especial”. O Hospital SOC de corrêas. Mais especificamente na ala para portadores de deficiencias mentais. E acreditem, eles eram muitos !!! Mais de 50, pelo menos uns 20 acamados e o restante na sua grande maioria cadeirantes e portadores de distúrbios fortes. Não sei exatamente os rumos que o projeto irá tomar no próximo ano, e também não sei se estarei presente na próxima temporada. Tudo vai depender de uma série de fatores externos e “internos”, mas tomei esta visita como sendo minha despedida neste trabalho, visto que foi a última de 2009. Pelo menos por enquanto o projeto estará sem atividades ... mas isso será assunto para um outro post. Voltemos a tarde no SOC:
Chegamos ao hospital por volta das 14h. Fomos recepcionados pela diretora da ala de especiais e encaminhados para uma das salas na secretaria do hospital (uma especie de salinha de aula, não muito grande, repleta de fotos dos pacientes, desenhos, brinquedos, pequenos trabalhos manuais). Lá nos trocamos, nos maquiamos e fechamos os últimos detalhes antes de iniciarmos a nossa visita.
Alguns de nós (voluntários novos), nunca haviam estado em um hospital psiquiátrico antes.
Ao chegarem no SOC, eles logo se depararam com alguns pacientes trancados por grades e por vezes se debatendo e gritando no pátio externo. Acredito que estes novos voluntários tenham vivido o mesmo medo e “emoção” que sentí há três anos atrás.
É claro, que de alguma forma, eu também ainda sinto aquele frio na barriga. Acho que dá para defir como uma espécie de temor mesmo. Mas hoje é bem diferente, embora todas as visitas ainda sejam antecedidas de grande ansiedade por todo o grupo, sempre !! Afinal, cada participação, por mais que seja planejada, tem muito de improviso. E acreditem ... improvisar não é uma coisa fácil ... nunca !!! Precisamos estar sempre preparados para surpresas e para o que por ventura vier acontecer de inesperado.
Procuramos nos dividir desta vez... Eram muitos pacientes e nós apenas uns 10 palhaços mais ou menos, se não estou enganado agora. Nós tínhamos um “trunfo” ... dois violeiros no grupo. E partimos desse ponto ao nosso favor, para iniciarmos nossas atividades. A proposta era bastante simples. Entrar nos quartos e interagir com música, amarrar nossos balões de gás e tentar algum tipo de interação com os pacientes acamados.

Bem, parece mesmo simples, mas acreditem amigos... Não, não é: -A letra da música ??? Alguém lembra a letra da música ??? Droga o balão agarrou no meu chapéu. Ai meu DEUS!... Justo agora essa vontade de ir ao banheiro? Meu grupo ... Cadê o pessoal do meu grupo ??? Não fulano, você está no outro grupo. Gui, pode começar a tocar ... Não, Não, Não ... você me avisa quando eu devo entrar cantando ... Ah! Não tem introdução ???? Tudo bem ... sem introdução. Alguém pode soltar esse maldito balão do meu chapéu ???? Pois é! ... é mesmo assim, até você ganhar o corredor principal e se jogar de vez no “picadeiro”. Entramos no primeiro quarto e só então percebi que eu não tinha a menor ideia de como interagir com aqueles pacientes. Deu branco mesmo !!! Nas macas, deitados e por vezes amarrados, eles não estavam aptos a responder de forma direta, nenhum tipo de interação que tentássemos fazer. Visitas assim, tornam o trabalho ainda mais complicado. Como alegrar alguém que você não sabe se está entendendo o que você está fazendo ? Foi então que me lembrei da frase do Nelson Rodrigues na hora: “A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada." Nos restara mesmo a música. Olhei para nosso palhaço e violeiro Marmita ( Gui Santos ) e comecei a cantar o “Caçador de Mim” ... tentando em um ato meio desesperado encontrar o tom na voz que acompanhasse os acordes do violão. Claro que desafinei !!! Desafinei muiiiito ... e me senti meio mal com isso ... meus companheiros tb não eram muito dados a música e por hora me pareceram mais assustados que eu.

Fui amarrando o balão com gás hélio nas camas e pensei até em parar de cantar. Porém ao chegar em uma maca no final da sala, fui surpreendido quando um menino segurou fortemente a minha mão. Um garoto bonito, aparentando uns 16 ou 17 anos apenas.
Notei que o olhar dele não estava direcionado para a minha figura colorida de Clown , ali parado estático na sua frente, mas algo no fundo do meu coração, dizia que ele podia sentir a minha presença. Ao segurar minha mão, a impressão que tive foi a de que ele pedia socorro de tão forte que era o seu toque ... comecei então a cantar mais alto e continuei segurando a mão dele. Cantei boa parte dos versos da canção e ele parado apenas ouvia, suavizando o seu aperto, como se seu coração pudesse se acalmar com a música. Em seguida ele soltou de vez a minha mão virou-se para o canto da cama enconstada na parede. Ao mesmo tempo, eu senti que o meu coração também ficara mais calmo. O Frenesi do começo da visita, o medo de não saber o que fazer naquele momento, estava passando e eu ficando enfim no clima para seguir para outros quartos com meus companheiros palhaços. E assim ocorreu na ala dos acamados: Fui entrando nos quartos, amarrando meus balões ... tentando interagir como podia, mas sem muita resposta por parte deles. Bem, sem muita resposta por parte deles, porque pra mim, as respostas iam aparecendo a cada instante. Agachei próximo a uma maca baixinha onde uma já senhora de uns 50 anos se encontrava deitada e amarrada. Diferente de outros pacientes, ela não se debateu ou esboçou nenhum tipo de reação ao nos ver chegar. Apenas observou fixamente um girassol que eu girava lentamente em minhas mãos. Seu olhar e sua atenção estavam fixos na Flor e eu continuei cantando a música do Milton Nascimento que nessa altura já saia um pouco mais afinada dos meus lábios. Neste momento o Luiz Alves ( voluntário que acompanhava o grupo pela primeira vez ) aproximou-se e me vendo cantar ali para aquela senhora tb começou a cantar a música do meu lado. Cantamos, cantamos e quando terminamos ela ainda sem expressar nenhum sentimento com seu olhar distante parecia estar perdida em um mundo que não conseguíamos sequer imaginar onde seria.

Foi então que perguntei para ele: - Você sabe qual a importância de cantarmos para ela ? - Não. Ele respondeu, Será que ela gostou ? - Quantas pessoas você acha que já abaixaram aqui, para cantar uma canção para esta senhora ? tornei a perguntar.
- Nenhuma, ele disse. Nos olhamos e saímos em silêncio do quarto.

Outra cena que jamais esquecerei foi um momento em que eu cantava para um menino bastante debilitado fisicamente e com os membros inferiores e superiores pouco desenvolvidos. Usando fraldas e sem poder mover o pequenino corpo atrofiado em cima da cama, eu procurava despertar nele um pouco de atenção utilizando o D’lite (um dedinho que acende uma luz vermelhinha ). Percebi que mesmo imóvel seu olhar acompanhava a luz quando eu a movimentava. Continuei cantando e percebi que por vezes, seus olhinhos iam se fechando lentamente. Então sorri ... Me senti como um pai que canta para que seu filho adormeça.

Aos poucos ele foi fechando seus olhinhos, fechando, fechando .... até que finalmente dormiu. Eu estava sozinho ao lado de sua maca neste momento ... aliás, eu achava que estava sozinho. Um pouco ao lado, na porta principal do quarto Magali ( Rosi Torres ) me admirava em silêncio. Percebi que ela me observava com admiração e um olhar ternoe carinhoso. Nos olhamos, mas não dissemos absolutamente nada um para o outro. E nem precisávamos ... há cerca de um ano atrás presenciei cena semelhante com ela brincando com um acamado calmamente e transmitindo uma paz que não consigo descrever somente com palavras.

Devo ao trabalho dela, essa observação e o aprendizado para trabalhar essa maneira com o acamado. Sempre fui muito eufórico e barulhento como palhaço. Rosi me ensinou que em certas situações, é preciso puxar o freio e ser mais, digamos, delicado com a situação!!!

Finalmente percorremos todos os leitos e fui com o meu grupo me juntar ao pátio, onde outros palhaços alegravam aqueles pacientes que tem pouca ou alguma espécie de locomoção. Na grande maioria cadeirantes.

No caminho deparei com algumas enfermeiras no corredor e lógico dei minhas implicadinhas básicas com elas tb ... Ora perguntando se elas haviam tomado banho naquele dia e retirando das suas orelhas feixos de luz, ora cantando pequenos refrões como:

Eu não sou daqui Enfermeiro eu sou Eu não tenho amor Enfermeiro eu sou Estou todo de branco Enfermeiro eu sou Mas não sou pai de santo ... E por ai vai ... Quando cheguei ao pátio principal, o que encontrei foi um ambiente já contaminado de alegria e descontracção ... pacientes ( nossas crianças como gostamos de chamá-los) com balões coloridos presos em suas cadeiras de rodas. Brincando de roda, trenzinho, cantando, dançando e o que mais nos deixa feliz ... sorrindo. Sorrisos e olhares difíceis de se esquecer ...

Sempre tem alguém que acaba se destacando e cativando, emocionando a gente além da conta.

Desta vez foi a Lili. Uma menina muito esperta, poeta ( isso mesmo queridos amigos – Lili faz poesia lindamente!) E não é essa coisa de batatinha quando nasce esparrama pelo chão não ... fui desafiado por várias vezes a lançar o tema e em todas elas Lili nos surpreendeu com lindas palavras de otimismo e força que despertaram lágrimas nos olhos dos convidados que acompanhavam nossa divertida conversa.

Tenho que confessar que o Pitolomeu não foi o mais querido por ela não.

Usando suas palavras digo: “Os olhos penetrantes do Lambreta ( Marcos Wendling ) mesmo por detrás de lentes laranjas, lhe encantaram e seduziram ( isso mesmo, seduziram ) muito mais .... kkkkk !!! Fabuloso isso amigos ... a jovem Lili despertou uma paixão repentina pelo nosso querido palhaço de cabelos azuis encaracolados e despenteados .... Isso só nos prova uma coisa. Devemos sempre olhá-los como eles nos olham ... despidos completamente de preconceitos e diferenças.

Claro que não é o fato de pintar um clima de “romance” no ar que é o importante nesta observação. É o simples fato da Lili iguinorar o nariz vermelho, roupa estravagante e extremamente colorida, cabelos azuis, óculos e chapéus esquisitos do Lambreta. A regra é : A dica que deixo para quem por ventura se aventurar a fazer este trabalho é:

- Você é diferente ??? Ah tá ! Podemos nos entender mesmo assim ...

- E ai, vamos brincar ????

4 comentários:

Beck disse...

E-mail de Michelle Freitas:

Caros amigos palhaços, palhaços amigos,

Mais uma vez fico sem palavras para descrever tudo o que significou. Essa visita que fechou o ano e foi especialíssima foi preenchida mais do que nunca por um incondicional amor ao próximo. E também por muita dedicação na preparação, comprometimento com a organização e uma dose excessiva (e essencial) de carinho com cada um dos pacientes que com seus sorrisos e olhares tanto nos ensinaram. Sei que em muitos momentos os corações ficaram apertados e as lágrimas teimaram em correr, mas permanecemos fortes para que nossa missão fosse magicamente cumprida. E foi, se foi!

Parabéns a todos! Se tivesse mais pessoas Brincando pelo mundo.... o mundo seria um lugar melhor.

Agradecimentos especiais à Fabril que doou o lanche, à Renata da "Casa dos Sonhos" que doou os balões, também aos nossos "violeiros" Guilherme e Igor e, claro, à Diretoria da VOCE que está sempre ao nosso lado.

E como diz a música que cantamos incansavelmente tantas vezes:

"Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo"

Um semana de muita paz para todos!

Com carinho,

Michelle
Mimi :o)

Beck disse...

E-mail de Julio Talon em resposta para Michelle:

Michelle,

Entendo perfeitamente quando voce relata a dificuldade de descrever o que foi a visita do sábado passado.Acho que ainda não consegui avaliar a dimensão do que aconteceu lá no SOC. Foi uma lição de vida pura.

Muito obrigado a todos vocês trabalho maravilhoso e me darem a oportunidade de compartilhar com voces um daqueles dias que vão ficar eternizados na minha memória.

Uma excelente semana a todos,

Julio

Beck disse...

E-mail de Luiz Claudio Alves:

Boa tarde, palhaços gostei muito por participar foi uma experiência muito boa e muito gratificante para a minha vida.Espero participar mais vezes.

Um grande abraço a todos
Assistente Linguiça

Beck disse...

E-mail da Luciana Costa (VOCE):

Mimi e Amigos do Brincando,

Mais uma vez parabéns por esse trabalho tão maravilhoso que vocês conduzem com tanto Amor, Carinho e Dedicação !
Infelizmente, dessa vez não pude ir, mas para ser muito sincera, não sei se teria estrutura emocional para aguentar... De qualquer forma, ver estas fotos, me faz pensar e refletir sobre muitas coisas ...

Vocês podem ter certeza de que contribuem para um Mundo Melhor sim, não só para essas pessoas que vocês visitam mas a todos que tem a oportunidade de alguma forma participar !!

Muito obrigada !
Lu