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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012


Crônica da Loucura - Luis Fernando Veríssimo

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles . Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estouadorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos:

1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido ,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do princípio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime . Deve gostar de uma branca, eos pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala . Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

(3) E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatostambém pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas.Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assuou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro,abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava na quinta dezena em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.

Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
Ele ri... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:

- O Ditinho é o nosso office-boy.

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.

-"E você, não vai ter alta tão cedo...."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tesouro
(Luiz Fernando Veríssimo )
Dois velhos sátiros conversando. Sobre as menininhas. — Que safra. — Grande safra. — Cada neném... — Nem me fala. — Lindas. — E desinibidas. — Desinibidas. Sem preconceitos. — Informais. — Nenhuma chama a gente de senhor. — Agora, tem uma coisa... — O quê? — Não sei se acontece isto com você, mas às vezes... — O quê? — Falta papo. É ou não é? — Como assim? — Sei lá. Está certo que o que a gente procura nelas não é estímulo intelectual. Mas de vez em quando a gente gosta de... não é mesmo? Conversar. Trocar idéias. — Nem que seja só para recuperar o fôlego. — Exato. E não dá. Esta geração não leu nada. — Nada. — Antigamente ainda liam O pequeno príncipe. — Liam O pequeno príncipe demais, para o meu gosto. — Mas liam. Quer dizer, rendia cinco minutos de conversa. Hoje, nem isto. — Mas isso tem o seu lado bom. — Bom? — Bom, não. Formidável. — Como, formidável? — Você não vê? — O quê? — Você ainda não se deu conta? — Do quê? — Meu querido. Elas não conhecem Vinicius de Moraes! — E o que que... — Esta é a primeira geração brasileira em muitos anos a passar pela puberdade sem ler Vinicius de Moraes. Intocada por Vinícius de Moraes. Virgem de Vinicius de Moraes. — Sim, mas... — Lembra antigamente, quando a gente começava um verso do Vinicius para uma menininha? O que acontecia? — Ela terminava. — Isso. Sabia de cor. Claro que aquilo ajudava. Aproximava vocês. Você mostrava que era um cara sensível e ela se convencia de que, gostando dos mesmos versos, vocês eram feitos um para o outro. Nascia um amor eterno enquanto durasse, mesmo que fosse só uma noite. — E hoje? — Hoje você diz uma frase de Vinicius no ouvido de uma rae-nininha e ela pensa que a frase é sua. E a mesma coisa, sem o Vinicius. Elimina-se o intermediário. — Será? — Há alguns anos eu estou passando frases do Vinicius de Moraes como se fossem minhas, improvisadas na hora. Poemas inteiros. — Mas fazem efeito? — O quê? Elas estão acostumadas com a conversa dos garotos da idade delas. Uma espécie de português reduzido às interjeições. Qualquer vocabulário com mais de 17 palavras deixa elas extasiadas. As que não admiram a poesia, admiram a prolixidade. — Eu não tinha pensado nisso. — Experimente. — E se aparecer uma que conhece o Vinicius? Serei desmascarado. — Se aparecer uma que conhece o Vinicius será velha demais para você. E pense no seguinte: tudo o que o Vinicius escreveu sobre o amor. Sem contar as letras de músicas. É um tesouro inesgotável. E tudo inédito, para elas. Ler o Vinicius, para refrescar a memória, ê uma das últimas coisas que eu faço todas as noites, antes de dormir. — E a última, qual é? — Tomar a minha gemada.

terça-feira, 22 de junho de 2010

"Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade,tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto,não se alcança o coração de alguém com pressa.Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente,apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade,teremos que furtá-lo, docemente.Conquistar um coração de verdade dá trabalho,requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos,aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.Para se conquistar um coração definitivamente tem que ter garra e esperteza,mas não falo dessa esperteza que todos conhecem,falo da esperteza de sentimentos,daquela que existe guardada na alma em todos os momentos. Quando se deseja realmente conquistar um coração,é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso,é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes,que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchidoe aceitar cada espaço vago....e então,quando finalmente esse coração for conquistado,quando tivermos nos apoderado dele,vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco..."
Luiz Fernando Veríssimo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Degustação de vinho em Minas
Luiz Fernando Veríssimo
- Hummm...
- Hummm...
- Eca!!!
- Eca?! Quem falou Eca?
- Fui eu, sô!
O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas de lembranças tropicais atávicas...
- Putaqueupariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?!
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?
- Cêbêsta sô, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui tá me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, lá isso tá!
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor tá gripado, é?
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende? Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então...
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no...
- Mais num vai introduzi é nada e nunca! Desafasta, coisa ruim!
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...
- O senhor poderia começar com um Beaujolais!
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!
- Então, que tal um mais encorpado?
- Óia lá, ocê tá brincanu com fogo...
- Ou, então, um suave fresco!
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já tá coçando de vontade de metê um tapa na sua cara desavergonhada!
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro, qui inté rima com brabuleta...
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?
- E que tal a mão no pédovidu, hein, seu fióte de Belzebu?
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia!
- Mole e redondo, com bouquet forte?
- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é trêis! Num corre, não, fiudaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua ..

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Textos: Mudanças ( e saudade!) - Luiz Fernando Veríssimo

E tudo mudou... O rouge virou blush O pó-de-arroz virou pó-compacto O brilho virou gloss O rímel virou máscara incolor A Lycra virou stretch Anabela virou plataforma O corpete virou porta-seios Que virou sutiã Que virou lib, que virou silicone A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento A escova virou chapinha “problemas de moça” viraram TPM Confete virou MM A crise nervosa virou estresse A chita virou viscose A purpurina virou gliter A brilhantina virou musse Os halteres viraram bomba A ergométrica virou spinning A tanga virou fio dental E o fio dental virou anti-séptico bucal Ninguém mais vê... Ping-Pong virou Babaloo O á La carte virou self-service A tristeza, depressão O espaguete virou miojo pronto A paquera virou pegação A gafieira virou dança de salão O que era praça virou shopping A areia virou ringue A caneta virou teclado O long play virou CD A fita de vídeo é DVD O CD já é MP3, 4, 5 É um filho onde éramos seis O álbum de fotos agora é mostrado por e-mail O namoro agora é virtual A cantada virou torpedo E do ‘não’ não se tem medo O break virou street O samba, pagode O carnaval de rua virou Sapucaí O folclore brasileiro, halloween O piano agora é teclado, também O forró de sanfona ficou eletrônico Fortificante não é mais Biotônico Bicicleta virou Bis Polícia e ladrão virou Counter Strike Folhetins são novelas de tv Fauna e flora a desaparecer Lobato virou Paulo Coelho Caetano virou chato Chico sumiu da FM e TV Baby se converteu RPM desapareceu Elis ressuscitou em Maria Rita? Gal virou fênix Raul e Renato, Cássia e Cazuza Lennon e Elvis, Michael Todos anjos Agora só tocam lira A Aids virou gripe A bala antes encontrada, agora é perdida A violência esta coisa maldita! A maconha é calmante O professor é agora o facilitador As lições já não importam mais A guerra superou a paz E a sociedade ficou incapaz... De tudo Inclusive de notar essas diferenças.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Frase: Luis Fernando Veríssimo

"Sonho é comer um churrasco preparado por gaúchos, numa praia do nordeste, com mulheres mineiras, organizado por paulistas e animado por cariocas.
Pesadelo é comer um churrasco preparado por mineiros, numa praia gaúcha, com mulheres nordestinas, organizado por cariocas e animado por paulistas. "

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Textos: Namoro ( Luis Fernando Veríssimo )


O melhor do namoro, claro, é o ridículo. Vocês dois no telefone:
— Desliga você. — Não, desliga você. — Você. — Você. — Então vamos desligar juntos. — Tá. Conta até três. — Um... Dois... Dois e meio...
Ridículo agora, porque na hora não era não. Na hora nem os apelidos secretos que vocês tinham um para o outro, lembra?, eram ridículos. Ronron. Suzuca. Alcizanzão. Surusuzuca. Gongonha. (Gongonha!) Mamosa. Purupupuca...
Não havia coisa melhor do que passar tardes inteiras num sofá, olho no olho, dizendo:
— As dondozeira ama os dondozeiro? — Ama. — Mas os dondozeiro ama as dondozeira mais do que as dondozeira ama os dondozeiro. — Na-na-não. As dondozeira ama os dondozeiro mais do que etc.
E, entremeando o diálogo, longos beijos, profundos beijos, beijos mais do que de língua, beijos de amígdalas, beijos catetéricos. Tardes inteiras. Confesse: ridículo só porque nunca mais.
Depois do ridículo, o melhor do namoro são as brigas. Quem diz que nunca, como quem não quer nada, arquitetou um encontro casual com a ex ou o ex só para ver se ela ou ele está com alguém, ou para fingir que não vê, ou para ver e ignorar, ou para dar um abano amistoso querendo dizer que ela ou ele agora significa tão pouco que podem até ser amigos, está mentindo. Ah, está mentindo.
E melhor do que as brigas são as reconciliações. Beijos ainda mais profundos, apelidos ainda mais lamentáveis, vistos de longe. A gente brigava mesmo era para se reconciliar depois, lembra?
Oito entre dez namorados transam pela primeira vez fazendo as pazes. Não estou inventando. O IBGE tem as estatísticas.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Crônicas: Luiz Fernando Veríssimo ( História Estranha )

Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás.O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Texto: Veríssimo ....Adoro !!!

- Alô? Quem tá falando?
- Aqui é o ladrão.
- Desculpe, a telefonista deve ter se enganado, eu não queria falar com o dono do banco.
- Tem algum funcionário aí?
- Não, os funcionário tá tudo refém.
- Há, eu entendo. Afinal, eles trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil... Mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
- Impossível. Eles tá tudo amordaçado.
- Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica,vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
- Claro que não mermão. Quanta inguinorânça! O chefe tá na cadeia, que é o lugar mais seguro pra se comandar assalto!
- Bom... Sabe o que é? Eu tenho uma conta...
- Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero!
- Não, isso eu já sabia. Eu sou professor! O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.
- Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um sequestro. Pra saber de juro é melhor tu ligá pra Brasília.
- Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço quetão cobrando por um voto hoje em dia... Mas , será que não podia fazerum favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.
- Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!
- Longe de mim pensar que o senhor está de brincadeira! Que é um assalto eu sei perfeitamente; ninguém no mundo cobra os juros quecobram no Brasil. Mas queria saber o número preciso: seis por cento, sete por cento?
- Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
- Ah, já tava esperando. Você vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?
- Não... Já falei... Eu sou... Peraí bacana... Hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho.
(...um minuto depois)
- Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.
- Puxa, que incrível!
- Incrive por quê? Tu achava que era menos?
- Não, achava que era mais ou menos isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, eu consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço pelo telefone em menos de meia hora e sem ouvir 'Pour Elise'.
- Quer saber? Fui com a tua cara. Acabei de dar umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?
- Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?
- Nadica de nada, já tá tudo acertado!
- Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa...(de repente, ouvem-se tiros e gritos)- Ih, sujou! Puliça!- Polícia? Que polícia? Alô? Alô?(sinal de ocupado...)
- Droga! Maldito Estado: quando o negócio começa a funcionar, entra oGoverno e estraga tudo!
Luís Fernando Veríssimo

terça-feira, 7 de abril de 2009

Textos: Dúvidas pascais / Luis Fernando Veríssimo.

- Papai, o que é Páscoa? - Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa! - Igual ao Natal? - É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição. - Ressurreição? - É, ressurreição. Marta, vem cá! - Si m? - Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal. - Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu? - Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho? - Que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo! - Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus? - É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. - O Espírito Santo também é Deus? - É sim. - E Minas Gerais? - Sacrilégio!!! - É por isso que a Ilha da Trindade fica perto do Espírito Santo? - Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho! - Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa? - Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos. - Coelho bota ovo? - Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais! - Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa? - Era... era melhor, sim... ou então urubu. - Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia que ele morreu? - Isso eu sei: na Sexta-feira Santa. - Que dia e que mês? - (???) Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia. - Um dia depois! - Não, três dias depois. - Então morreu na quarta-feira. - Não! Morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo! - Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua? - É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus. - O Judas traiu Jesus no sábado? - Claro que não! Se Jesus morreu na sexta!!! - Então por que eles não malham o Judas no dia certo? - Ui... - Papai, qual era o sobrenome de Jesus? - Cristo. Jesus Cristo. - Só? - Que eu saiba sim, por quê? - Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha? - Ai Coitada! - Coitada de quem? - Da sua professora de catecismo! Luis Fernando Veríssimo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Crônicas: Luiz Fernando Veríssimo

Alô? Quem tá falando? - Aqui é o ladrão. - Desculpe, a telefonista deve ter se enganado, eu não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí? - Não, os funcionário tá tudo refém. - Há, eu entendo. Afinal, eles trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil... mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles? - Impossível. Eles tá tudo amordaçado. - Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí? - Claro que não mermão. Quanta inguinorânça! O chefe tá na cadeia, que é o lugar mais seguro pra se comandar assalto! - Bom... Sabe o que que é? Eu tenho uma conta... - Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero! - Não, isso eu já sabia. Eu sou professor! O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro. - Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um seqüestro. Pra saber de juro é melhor tu ligá pra Brasília. - Sei, sei. O senhor ta na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia... mas, será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa. - Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto! - Longe de mim pensar que o senhor está de brincadeira! Que é um assalto eu sei perfeitamente; ninguém no mundo cobra os juros que cobram no Brasil. Mas queria saber o número preciso: seis por cento, sete por cento? - Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca? - Ah, já tava esperando. Você vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né? - Não...já falei...eu sou... Peraí bacana... hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho. (um minuto depois) - Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês. - Puxa, que incrível! - Incrive por que? Tu achava que era menos? - Não, achava que era mais ou menos isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, eu consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço pelo telefone em menos de meia hora e sem ouvir 'Pour Elise'. - Quer saber? Fui com a tua cara. Acabei de dar umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado? - Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco? - Nadica de nada, já ta tudo acertado! - Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa... (De repente, ouvem-se tiros, gritos) - Ih, sujou! Puliça! - Polícia? Que polícia? Alô? Alô? (sinal de ocupado) - Droga! Maldito Estado: quando o negócio começa a funcionar, entra o Governo e estraga tudo!