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sexta-feira, 28 de outubro de 2011


"Eu considero a casa uma tradução sua, minha,
 de cada um de nós. A casa é a minha representação."  
Elisa Lucinda

quarta-feira, 12 de outubro de 2011



" Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor." 

Elisa Lucinda.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Poesia: Elisa Lucinda

Dei um gelo nela
(o poema da geladeira)
Estava há uma semana vazia...
Fazia dias que ela não gelava senão água.
Até que choveu na minha conta outro dia:
Saí, comprei aves, peixes, lagostas, camarões...
Olhei pra ela, estava cheia.
Chuchus sorriam pra mim: há quanto tempo... diziam.
Uvas e beterrabas batiam palminhas do reencontro
Até a galinha morta era feliz por mim.
Dormi pensando em receitas boas.
Acredita que de manhã um carrasco havia sido pago pra levá-la?
Ela que nunca foi totalmente minha.
Liguei pra dona, me humilhei sozinha dentro do discurso justo de que sou artista
e por isso inconstante na economia. E a dona nada. Não cedia.
O carrasco ia levar minha deusa, minha neve possível, minha geada de estimação.
À hora marcada, chorei agarrada àquela cônsul mimada demais por mim;
Tão adotiva, tão afetiva... eu atracada a ela, pedia, gemia...
E ela, nada; ela fria, desligada, já não me dava nem gelos.
Fiquei sem patrimônio. Sem preservação de alimentos.
Fiquei sem centro, a zombar de mim. Até que me lembrei dos meus bens: a coragem, a beleza, a força, a poesia, a esperteza.
Coisas que não se encontram em pontos-frios, coisas que não são substituíveis por um isopor.
Então já amanheci pondo coentros nas jarras como flores!
Curei minhas dores sem congelamento.
Me virei por dentro onde tudo é mantido quente vivo.
Tirei tudo de letra e de ouvidocomo quem tira uma música!
(Da série “Eletrodométricos”)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fragmento: Dor de Fevereiro ( Elisa Lucinda )

Eu acordo magra. Acordo alta e fina. Não que eu durma baixinha e gorda, mas sempre acordo menos cheia da que foi deitar-se para esta manhã. Ontem, fui dormir com trinta e oito anos pela última vez. Gostei deles mas queria ter brincado mais. Eu gosto quando não acaba a brincadeira.
Amanheceu um domingo azul. Recortado pelo verde das montanhas parece até encomenda. O mar também veio com seus escândalos de anil...
Só minha mãe não compareceu ao calendário de hoje. Todos os anos ligava e era o mesmo ritual: Filha? Feliz aniversário. Você está quase nascendo. Já estou sentindo as contrações. E gargalhava na brincadeira materna. Me lembro, filha, que era domingo. Eu estava passando batom para ir ver os blocos, o desfile, quando senti a primeira contração. E depois a outra e mais outra... Larguei batom e seu pai me levou direto para a maternidade. Fiquei lá lendo umas revistas que seu pai comprou pra mim. Cê acredita?
Sim, porque foi chegar lá pra neném não dar sinal mais de nascer. Só foi nascer ao meio-dia, a danadinha. Linda! Não é por ser minha filha não, mas nasceu linda. Duas pedrinhas azuis no lugar dos olhos. Ai, parece que estou vendo. Depois é que seus olhos ficaram verdes. Seu pai com você no colo se exibindo pros amigos médicos e enfermeiras. Todo bobo seu pai. E você era a cara dele. O homem chegava tá mole. E eu feliz que só vendo.
Você saiu sem me doer. Quando decidiu, veio. Saiu sem me sacrificar. Lá fora a gente só ouvia a banda da janela, os mascarados à tarde, a gente via. Feliz aniversário, filha!
A poesia de minha mãe era essa. Cotidiana. Costurada por dentro da palavra conversa e da palavra dia. Eu adorava ouvir essa história do meu nascimento pela voz dela e ia a cada ano descobrindo um novo detalhe dentro da narrativa. Aquela voz no meu ouvido a me contar que tinha cheiro vermelho de rouge, parecia um peito bom na minha cara e no meu ouvido.
Hoje é domingo azul de sol e carnaval outra vez. Nem sempre é domingo e carnaval e aniversário acontecem juntos. É só de vez em quando. Hoje é uma dessa vez. E passo batom em mim. Essa bandinha de bairro, bandinha de pracinha com esses senhores tocando “Cidade Maravilhosa” tem um jeito especial de encher meus olhos de lágrimas e ao mesmo tempo partir-me o peito. Vem na boca o gosto de toda a folia na adolescência em Jacaraípe com serpentinas pontuando a história.
Vou pintando os olhos vestindo a fantasia. Aquela conversa de minha mãe era uma bandinha de carnaval no meu ouvido. Hoje é domingo e aniversário. Minha mãe não ligou. No meu peito a clarineta, o tarol, o sax, o bumbo, toda a banda inteira do meu peito toca “Mamãe eu quero.”
*Elisa Lucinda é atriz e poeta

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Poesia: Elisa Lucinda

Libertação "(...) Peço ao ano-novo aos deuses do calendário aos orixás das transformações: nos livrem do infértil da ninharia nos protejam da vaidade burra da vaidade “minha” desumana sozinha Nos livrem da ânsia voraz daquilo que ao nos aumentar nos amesquinha A vida não tem ensaio mas tem novas chances Viva a burilação eterna, a possibilidade O esmeril dos dissabores! Abaixo o estéril arrependimento A duração inútil dos rancores Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos: a vida inédita pela frente e a virgindade dos dias que virão!"

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poesia: Elisa Lucinda

"ME ASSUSTA E ACALMA
SER PORTADORA DE VÁRIAS ALMAS
DE UM SÓ SOM COMUM ECO
SER REVERBERANTE
ESPELHO, SEMELHANTE
SER A BOCA
SER A DONA DA PALAVRA SEM DONO
DE TANTO DONO QUE TEM."

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poesia: Elisa Lucinda

" Se prepare não se assuste não me apague. Talvez você se depare com seu medo bem no meio da sua coragem."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Elisa Lucinda: Cor-respondência.

Cor-respondência
Remeta-me os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir o amor bem feito
que voce tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era o seu jeito ou de propósito
mas era bom, sempre bom
e assanhava as tardes.
Refaça o verso que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois.
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.